💛 SETEMBRO AMARELO
Eu me lembro de uma segunda-feira na faculdade em que os meus amigos chegaram na sala de aula contando como tinha sido o churrasco do fim de semana na casa de um dos nossos colegas. Eles riam, lembravam das piadas, repetiam as histórias e comentavam o quanto tinham se divertido juntos. Eu ouvia tudo aquilo e, embora não sentisse inveja, raiva ou qualquer sensação de injustiça, havia em mim uma tristeza difícil de explicar, porque eu tinha a impressão de que não estava vivendo aquilo que uma jovem deveria viver naquela fase da vida. Eu tinha me casado aos 20 anos e fui mãe aos 22, e enquanto muitos amigos ainda estavam vivendo uma juventude marcada por encontros, viagens, festas e fins de semana sem grandes responsabilidades, a minha realidade já era outra.
Eu tinha uma casa para cuidar, um marido, um filho pequeno e uma rotina que me exigia uma maturidade muito maior do que aquela que eu imaginava ter naquela idade. Por muito tempo, eu olhei para essa fase da minha vida com a sensação de que tinha queimado uma etapa importante. As palavras que eu usava para definir aquilo eram muito claras: “Eu queimei a minha juventude.” Na minha cabeça, existia uma ideia muito específica do que significava ser jovem e, como eu não estava vivendo daquela forma, passei a acreditar que tinha perdido algo que nunca mais poderia recuperar.
O problema é que, quando contamos uma mesma história para nós mesmas durante muitos anos, ela começa a ganhar força e a parecer uma verdade absoluta. Eu olhava para trás e enxergava aquilo que não tinha vivido, os churrascos dos quais não participei, as viagens que não fiz, os momentos de liberdade que não experimentei e tudo aquilo que parecia fazer parte de uma juventude que, na minha percepção, tinha passado longe de mim. Só que eu ainda não conseguia enxergar o que estava sendo construído em mim enquanto eu vivia aquela outra realidade.
Essa percepção começou a mudar quando o meu filho cresceu. Eu estava com 30 e poucos anos e ele já era adolescente. De repente, comecei a perceber que eu ainda era jovem e que muitas das responsabilidades mais intensas da maternidade já tinham ficado para trás. Quando cheguei perto dos 40, meu filho já estava quase com 20 anos, minha carreira estava mais estruturada, minha vida financeira também, e foi aí que algo dentro de mim mudou de lugar. Eu percebi que talvez eu não tivesse perdido a juventude; talvez eu apenas tivesse vivido as fases da vida em uma ordem diferente.
Eu percebi que talvez eu não tivesse perdido a juventude; talvez eu apenas tivesse vivido as fases da vida em uma ordem diferente.
Enquanto muitas pessoas viveram primeiro uma fase de liberdade e depois assumiram responsabilidades maiores, comigo aconteceu o contrário. Eu vivi cedo uma fase adulta, cheia de compromissos, escolhas e responsabilidades, mas cheguei a uma etapa da vida em que ainda era jovem, meu filho já estava crescido e eu tinha diante de mim a possibilidade de viver coisas que antes não tinham sido possíveis. Eu poderia estudar no exterior, fazer intercâmbio, viajar, escrever, realizar sonhos e experimentar uma liberdade que agora vinha acompanhada de uma maturidade que eu não tinha aos 20 anos.
Foi nesse momento que a minha história mudou de significado. Eu parei de olhar apenas para aquilo que eu acreditava ter perdido e comecei a olhar para tudo o que aquele período tinha me dado. A maturidade, talvez, tenha sido o maior presente. Eu aprendi cedo a cuidar, a decidir, a sustentar responsabilidades e a lidar com a vida de uma forma que me preparou para muitas coisas que ainda viriam depois. A fase que eu julgava ter me tirado algo também estava me dando recursos internos que eu só conseguiria reconhecer muitos anos mais tarde.
Foi assim que eu entendi uma coisa que hoje carrego comigo: não há tempo perdido quando há aprendizado. Isso não significa romantizar tudo o que foi difícil ou fingir que não existiram renúncias. Significa apenas compreender que uma experiência pode ter sido diferente do que esperávamos e, ainda assim, ter nos transformado de uma forma importante. Muitas vezes, o sofrimento não está apenas no que aconteceu, mas na maneira como continuamos contando essa história para nós mesmas.
Não há tempo perdido quando há aprendizado.
Talvez você também olhe para alguma fase da sua vida e pense que perdeu tempo. Talvez tenha dedicado anos aos filhos, a um relacionamento, a um trabalho, aos cuidados com alguém da família ou a uma realidade que exigiu de você mais do que gostaria. Talvez exista um sonho que tenha ficado guardado, um curso que não começou, uma viagem que não fez ou uma oportunidade que acredita ter deixado passar. Mas antes de concluir que tudo isso foi tempo perdido, talvez valha fazer uma pergunta diferente: o que esse período construiu em mim?
Essa pergunta muda o lugar de onde olhamos para a nossa própria história, porque nos tira da falta e nos leva para o aprendizado. Talvez você descubra que ganhou força, maturidade, discernimento, coragem, paciência, experiência ou até uma clareza que só existe hoje porque você viveu exatamente o que viveu. Isso não apaga aquilo que você gostaria que tivesse sido diferente, mas pode transformar a forma como você escolhe carregar essa fase dentro de si.
E existe ainda uma outra verdade importante: você não precisa voltar no tempo para viver o que deseja. Você pode começar exatamente de onde está agora, com a consciência que tem hoje, com tudo o que aprendeu e com a vida que ainda existe diante de você. O recomeço não exige pressa e não exige comparação. Ele só pede movimento.
Por isso, eu quero deixar algumas perguntas para que você possa pegar o seu planner ou um caderno e responder para você mesma. A ideia é olhar para a sua própria história de um outro lugar e transformar aquilo que você viveu em aprendizado, assim como eu precisei fazer com a minha.
- Qual fase da minha vida eu ainda considero como tempo perdido?
- O que eu acredito que deixei de viver nesse período?
- O que esse mesmo período me ensinou e me deu?
- Quem eu me tornei por ter vivido essa experiência?
- O que eu ainda quero viver a partir de agora?
Talvez você perceba que algumas coisas realmente ficaram para trás, mas talvez descubra também que muito do que você deseja ainda está ao seu alcance. Você não precisa recuperar o passado. Precisa apenas olhar para o presente e perceber que ainda existe caminho, escolha e possibilidade.
Foi por isso que gravei a quarta meditação da nossa série: para te guiar, com calma, até o menor passo possível.
Ainda dá tempo.
Com carinho, Dany Pereira.
Bora acordar! 💛
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